
Em 2015, geneticistas se depararam com um enigma. Analisando o DNA de povos indígenas da Amazônia, como os Suruí e os Karitiana, encontraram um sinal genético que se parecia mais com o de populações da Australásia, região que inclui Austrália, Nova Guiné e ilhas vizinhas, do que com o de outros povos das Américas. O sinal não aparecia na América do Norte nem na Central. Como ele chegou à floresta amazônica?
Um estudo publicado na revista PNAS por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com colegas da Universitat Pompeu Fabra, na Espanha, trouxe uma peça importante para esse quebra-cabeça. O primeiro autor é Marcos Araújo Castro e Silva, e a coordenação é da geneticista Tábita Hünemeier, da USP.
O sinal também está no Pacífico
A equipe analisou dados genéticos de populações indígenas de várias regiões da América do Sul. O resultado mostrou que a ancestralidade australasiana não é exclusiva da Amazônia. Ela também aparece em povos da costa do Pacífico, o que indica uma distribuição mais ampla dentro do continente do que se imaginava.
Isso aponta para um contato antigo entre habitantes da costa do Pacífico e da Amazônia. Segundo os autores, a contribuição australasiana entrou na América do Sul pela rota litorânea do Pacífico, antes de o ramo amazônico se formar, provavelmente numa população ancestral que reunia grupos costeiros e amazônicos.
Por que o sinal não está no norte
O estudo também propõe uma explicação para a ausência do sinal na América Central e do Norte. A rota usada pelos migrantes que carregavam essa ancestralidade, pela costa, teria levado esses grupos para o sul, sem deixar marcas genéticas nas populações que ficaram ao norte.
Não foi uma viagem pelo Pacífico
É importante entender o que o estudo não diz. A presença desse sinal não significa que povos da Austrália atravessaram o Oceano Pacífico de barco até a América do Sul. A hipótese mais aceita é que, entre os grupos asiáticos que deram origem aos primeiros americanos, havia uma população com parentesco antigo com os ancestrais dos australasianos. Parte desses migrantes, ao descer pela costa do Pacífico, levou essa herança até a América do Sul.
Como funciona esse tipo de estudo
Pesquisas como essa comparam milhares de pequenas variações no DNA, chamadas de marcadores, entre populações de diferentes continentes. Quando um grupo compartilha um número maior de marcadores com uma população distante do que seria esperado, os geneticistas falam em afinidade ou ancestralidade compartilhada. No caso do sinal australasiano, ele representa uma fração pequena do genoma dos povos sul-americanos, mas é estatisticamente consistente e não aparece por acaso, o que o torna uma pista valiosa sobre rotas antigas.
Muita variação entre os povos
Os pesquisadores encontraram ainda uma variação considerável na intensidade desse sinal entre diferentes povos e até dentro de uma mesma população. Isso reforça a ideia de que o povoamento da América do Sul foi mais complexo do que um único fluxo de pessoas, com várias ondas, rotas e misturas ao longo de milhares de anos.
Uma história ainda em construção
O número de ondas migratórias que chegaram às Américas, as rotas usadas e a origem dos primeiros imigrantes continuam em debate. Assentamentos antigos tanto na costa do Pacífico quanto no interior aparecem em estudos genéticos e arqueológicos. O trabalho da USP e da UFRGS ajuda a esclarecer como os diferentes componentes ancestrais se relacionaram no início do povoamento da América do Sul.
O tema conversa com uma das descobertas mais conhecidas da arqueologia brasileira, o crânio de Luzia, encontrado em Lagoa Santa, Minas Gerais. Durante anos, o formato desse crânio alimentou a hipótese de uma população anterior aos ameríndios com traços parecidos aos de povos da Oceania. Estudos genéticos mais recentes mostraram que os povos de Lagoa Santa eram ameríndios, mas a pergunta sobre como e por onde chegaram os primeiros sul-americanos continua movendo a ciência.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














