
Estudo da ETH Zurique e da Vrije Universiteit Brussel sugere que projeções globais baseadas em médias mensais podem subestimar a velocidade do derretimento das geleiras.
Poucos dias de calor intenso podem remover a neve que protege uma geleira e expor o gelo escuro por baixo, que absorve mais luz solar e derrete mais depressa. Esse efeito some quando o clima é calculado em médias mensais, e é justamente isso que um novo estudo tenta corrigir. Ao rodar um modelo global de geleiras com dados diários, pesquisadores da ETH Zurique, na Suíça, e da Vrije Universiteit Brussel, na Bélgica, projetam uma contribuição das geleiras para a elevação do nível do mar 5% a 10% maior neste século.
O trabalho foi publicado na revista Nature Communications e liderado por Lander Van Tricht, vinculado à ETH Zurique, ao WSL e à universidade belga. Os autores sugerem que as projeções globais atuais, em geral baseadas em dados climáticos mensais, podem estar subestimando a rapidez com que as geleiras perdem gelo em um planeta que aquece.
Por que a média mensal engana
A maior parte dos modelos globais de geleiras usa dados climáticos mensais, que suavizam as oscilações de curta duração. As geleiras, porém, reagem a eventos pontuais: ondas de calor, chuvas fortes e mudanças bruscas de temperatura.
A chuva também importa. Quando a temperatura oscila perto de zero grau, o fato de a precipitação cair como chuva ou como neve altera o quanto a geleira acumula e quanto água escoa dela. Um modelo mensal não enxerga essa transição, e o diário, sim.
“As geleiras não respondem a médias mensais, mas ao tempo que enfrentam todos os dias”, explica Van Tricht. “Uma onda de calor de apenas alguns dias pode derreter enormes quantidades de gelo. Ao calcular a média das condições ao longo de um mês inteiro, corremos o risco de subestimar o impacto desses eventos extremos.”
Como o modelo foi ampliado
A equipe estendeu o Global Glacier Evolution Model, o GloGEM, para operar em resolução diária. A versão foi aplicada a mais de 12.500 geleiras, que representam 94% do volume de gelo glacial do mundo.
Em comparação com a abordagem mensal tradicional, o modelo diário reproduziu melhor a perda de massa observada, principalmente em anos de derretimento excepcional. Os pesquisadores citam 2022 nos Alpes europeus, 2023 no oeste da América do Norte, 2024 em Svalbard, 2025 na Ásia Central e 2026 novamente nos Alpes.
O efeito se acumula até 2100
Segundo o estudo publicado na Nature Communications, o modelo diário projeta uma contribuição das geleiras para a elevação do nível do mar 5% a 10% maior no século 21 do que a versão mensal. O efeito se soma ao longo do tempo e tende a ser mais forte onde o derretimento depende muito das oscilações curtas de temperatura.
“Não é apenas a elevação gradual da temperatura que importa”, diz Van Tricht. “Eventos extremos de derretimento, como os que vimos recentemente nos Alpes europeus e em outras regiões, podem ter consequências duradouras para as geleiras. Capturá-los é, portanto, essencial para entender o futuro delas.”
A diferença é de projeção, não de medição: trata-se do resultado de um modelo, que os autores consideram mais realista, mas que continua sendo uma estimativa.
Água: não só quanto, mas quando
O estudo também aponta mudanças no momento e na intensidade do escoamento da água de degelo, com efeitos sobre os recursos hídricos a jusante.
“As geleiras são uma fonte importante de água doce para milhões de pessoas”, afirma Harry Zekollari, da Vrije Universiteit Brussel, que co-orientou o trabalho. “Entender não só quanto gelo vai desaparecer, mas também quando a água de degelo estará disponível, é crucial para antecipar mudanças na disponibilidade de água. Nosso estudo mostra que resolver a variabilidade diária do tempo pode melhorar substancialmente nossa compreensão dessas mudanças.”
O que isso significa para a Amazônia
O estudo não analisou a Amazônia como região, mas a conexão existe pela cordilheira dos Andes, onde nascem os rios que formam a bacia amazônica e onde há geleiras tropicais. A lógica do trabalho, de que o momento do degelo importa tanto quanto o volume, é a mesma para qualquer bacia alimentada por gelo de montanha. Já o aumento do nível do mar, ao qual as geleiras contribuem, é um fator de risco para áreas costeiras, como o litoral do Pará, do Amapá e do Maranhão, que o estudo não detalha.
Os dados completos e as imagens do estudo estão disponíveis na referência do artigo, acesse o artigo científico na Nature Communications. A expectativa dos autores é que projeções futuras incorporem a variabilidade diária para refinar as estimativas de perda de gelo e de disponibilidade de água.
Com informações de Vrije Universiteit Brussel.
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