Suíça perde 19,4% do gelo dos Alpes em cinco anos e vê geleiras virarem desertos de rocha

Suíça perde 19,4% do gelo dos Alpes em cinco anos e vê geleiras virarem desertos de rocha
Foto: acervo

Calor recorde e pouca neve aceleraram o colapso interno de geleiras monitoradas há décadas no país europeu.

Em áreas dos Alpes onde antes havia centenas de metros de gelo, pesquisadores agora encontram blocos isolados derretendo sobre rochas quentes. A Suíça perdeu 5,5% do volume de suas geleiras nos primeiros oito meses de 2026, e o recuo acumulado desde 2021 chegou a 19,4%, segundo o monitoramento anual do país.

O resultado é uma mudança física na paisagem alpina. Pequenos glaciares desapareceram, enquanto outros passaram a se desfazer também por dentro, com cavidades abertas por correntes de água sob o gelo e estruturas internas que entram em colapso.

O gelo recua, mas também desaba por dentro

O glaciologista Matthias Huss, da ETH Zürich, visitou em setembro o antigo glaciar Plattalvafirn, também chamado de Griess. O local cobria uma encosta montanhosa, mas perdeu 99% de sua área em duas décadas.

Segundo Huss, o cenário atual já não é apenas de uma frente de gelo recuando lentamente. Em alguns pontos, o glaciar perde sustentação interna. A água abre canais e grandes vazios, formando cavidades que podem derrubar o teto de gelo e acelerar a fragmentação.

“Você tem enormes buracos, como queijo, no meio do gelo, com tetos que estão desabando”, afirmou Huss. Para o pesquisador, esses processos “rasgam as geleiras” e fazem o recuo avançar ainda mais rápido.

Calor intenso veio depois de um inverno com pouca neve

A perda registrada em 2026 ficou pouco abaixo do recorde de 2022. O dado chama atenção porque o verão deste ano foi mais quente do que o de 2022, de acordo com a análise da MeteoSwiss, serviço meteorológico suíço.

A diferença foi explicada por fatores que preservaram uma parte do gelo. Houve um pouco mais de neve ao final do inverno, maior exposição à luz solar durante o verão e depósitos limitados de poeira do Saara. Quando essa poeira escurece a neve, a superfície reflete menos luz e absorve mais calor.

Mesmo com essas condições parcialmente favoráveis, a espessura média das geleiras monitoradas caiu entre 2,5 metros e 4 metros em 2026. Segundo a Swiss Glacier Monitoring Network, a Suíça perdeu 19,4% do volume de gelo de suas geleiras entre 2021 e os oito primeiros meses de 2026.

O verão mais quente e seco desde 1864

O período de abril a setembro de 2026 foi o mais quente e seco da série histórica suíça iniciada em 1864. A sequência de calor ocorreu em uma região que já registra alterações mais rápidas do que a média global.

Suíça perde 19,4% do gelo dos Alpes em cinco anos e vê geleiras virarem desertos de rocha
Foto: acervo

A Europa está aquecendo aproximadamente duas vezes mais rápido que o planeta, sob o efeito da poluição que retém calor na atmosfera e da destruição de áreas naturais. Desde o início da industrialização, a humanidade lançou cerca de 1,8 trilhão de toneladas de dióxido de carbono, enquanto a temperatura média global subiu aproximadamente 1,4 grau Celsius.

O caso suíço ajuda a visualizar como a crise climática se manifesta além das médias de temperatura. O impacto aparece no relevo, na duração da neve e na estabilidade de formações que pareciam permanentes para várias gerações.

Uma paisagem acompanhada há mais de 70 anos

Huss conhece o antigo Griess também pelos registros científicos produzidos na década de 1950, quando as taxas de recuo ainda eram consideradas próximas de um padrão normal. A comparação com aquele período permite medir a aceleração do processo sem depender apenas de fotografias recentes.

“O que estamos vendo agora é uma explosão completa dessas taxas de derretimento, levando à desintegração das geleiras. Elas estão realmente desmoronando”, disse o glaciologista.

A observação de geleiras pequenas é especialmente importante porque esses corpos de gelo podem perder toda a estrutura em pouco tempo quando a cobertura diminui. O monitoramento suíço ainda não fechou uma contagem formal dos glaciares desaparecidos em 2026, mas os cientistas já testemunharam a morte de vários deles.

O que a mudança significa para a Amazônia

A Amazônia não possui geleiras alpinas como as da Suíça, mas os dados interessam diretamente aos leitores dos nove estados da região. Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins também estão expostos aos efeitos de um planeta mais quente, embora a paisagem e os sistemas de água sejam diferentes.

A comparação precisa ser feita com cuidado. O desaparecimento de gelo nos Alpes não representa uma mudança imediata nos rios amazônicos. Ele funciona, porém, como um indicador visual da velocidade do aquecimento provocado pela concentração de gases de efeito estufa, o mesmo fenômeno que altera chuvas, secas e ondas de calor em diferentes partes do planeta.

Para a região amazônica, a principal lição está na rapidez da transformação. Um local que ainda era coberto por uma espessa camada de gelo para uma geração pode se converter em um terreno rochoso em poucas décadas. Na floresta, alterações de temperatura, umidade e regime de chuvas podem produzir mudanças igualmente profundas, mesmo sem uma geleira visível.

O monitoramento continuará nos Alpes

Os pesquisadores devem manter as medições de espessura, área e volume para acompanhar se a combinação de calor, pouca neve e colapso interno continuará acelerando a perda de gelo nos próximos anos. A série histórica será essencial para comparar os efeitos de novos verões extremos com o recorde registrado em 2022.

O relatório de 2026 reúne dados da Swiss Glacier Monitoring Network e da Swiss Commission for Cryosphere Observation, instituições responsáveis pelo acompanhamento das geleiras suíças.

Com informações de Swiss Glacier Monitoring Network.

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